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Tratamento de canal dói? O que os estudos mostram sobre dor, sucesso e o que vem depois

O canal é feito com anestesia local e, na maioria dos pacientes, reduz a dor que já existia. Veja o que dizem as revisões científicas sobre dor, duração do dente tratado e a necessidade de coroa.

Por Dr. Victor J. Eidt, cirurgião-dentista · CRO-SC 16999
· 5 min de leitura

Resposta curta: o tratamento de canal é feito com anestesia local, e a região fica dormente durante o procedimento. Para a maioria dos pacientes, ele reduz a dor que já existia: em uma revisão de 72 estudos, a proporção de pessoas com dor caiu de cerca de 81% antes do tratamento para 11% uma semana depois (Pak e White, 2011).

“Vai ter que arrancar?”

Muitas vezes, não. O tratamento de canal existe justamente para manter o dente na boca quando a parte de dentro dele está inflamada ou infectada. A fama de procedimento doloroso vem, em boa parte, da dor que o paciente já sente antes de chegar ao consultório.

O que é, afinal, o “canal”

Todo dente tem, por dentro, um espaço ocupado pela polpa, um tecido com nervos e vasos sanguíneos. Esse espaço desce pelas raízes em tubos finos, os canais radiculares.

Quando uma cárie profunda, uma fratura ou um trauma alcança a polpa, ela inflama. Como está presa dentro de paredes rígidas, a inflamação não tem para onde se expandir, e o resultado costuma ser dor intensa, sensibilidade prolongada ao quente e ao frio e dor que aparece sozinha, às vezes à noite. Se o tecido morre e é contaminado por bactérias, a infecção pode chegar ao osso na ponta da raiz.

O tratamento de canal (em termos técnicos, tratamento endodôntico) remove esse tecido, limpa e desinfeta os canais e os preenche com um material próprio, vedando o espaço para que as bactérias não voltem.

Dói? O que os estudos medem

A resposta mais sólida vem dos estudos que reuniram mais pacientes. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Endodontics analisou 72 estudos sobre dor antes, durante e depois do canal (Pak e White, 2011):

Momento Pacientes com dor Intensidade média (0 a 100)
Antes do tratamento 81% 54
24 horas depois 40% 24
7 dias depois 11% 5

Dois pontos merecem atenção. Primeiro, a dor diminui depressa: cai pela metade no primeiro dia e chega a níveis mínimos em uma semana. Segundo, a mesma revisão registrou que anestesia complementar foi necessária com frequência, sobretudo em dentes muito inflamados, que respondem pior ao anestésico. Por isso o dentista pergunta durante o procedimento se o paciente sente algo, e reforça a anestesia quando preciso.

Dor que persiste por muitos meses é incomum. Uma meta-análise com quase 3.000 dentes acompanhados estimou em cerca de 5% a frequência de dor persistente seis meses ou mais depois do tratamento, por qualquer causa (Nixdorf e colaboradores, 2010). Quando isso acontece, a investigação pode mostrar uma fratura, um canal não localizado ou uma dor de outra origem, como a articulação da mandíbula.

O que acontece em cada etapa

  1. Diagnóstico. Exame clínico, testes de sensibilidade e raio-X mostram se a polpa pode ser tratada, se há infecção no osso e se o dente tem estrutura suficiente para ser restaurado depois.
  2. Anestesia e isolamento. A região é anestesiada e o dente é isolado com um lençol de borracha, que mantém o campo limpo e seco.
  3. Acesso e limpeza. Uma abertura na coroa dá acesso aos canais, que são limpos, modelados e desinfetados com soluções próprias.
  4. Obturação. Os canais são preenchidos e vedados.
  5. Restauração. O dente recebe uma restauração ou uma coroa. Essa etapa não é um detalhe: é parte do resultado, como mostram os dados abaixo.

O número de sessões varia. Dentes com muita infecção podem receber uma medicação entre as consultas; outros são concluídos em uma só sessão.

Quanto tempo dura um dente tratado

Uma revisão sistemática da University College London reuniu estudos que acompanharam dentes depois do canal e calculou a proporção que continuava na boca: 86% a 93% entre 2 e 10 anos (Ng, Mann e Gulabivala, 2010).

Os mesmos autores identificaram quatro fatores ligados a uma permanência maior do dente, em ordem de influência:

  • receber uma coroa depois do tratamento;
  • ter dentes vizinhos dos dois lados;
  • não servir de apoio para prótese;
  • não ser um molar (os dentes de trás recebem mais carga).

Por que se fala tanto em coroa depois do canal

O dente que chega ao canal geralmente já perdeu estrutura, pela cárie, por restaurações antigas ou por fratura, e a abertura para alcançar os canais retira um pouco mais. Nos dentes de trás, que recebem a força da mastigação, isso aumenta o risco de trinca.

Um estudo da Universidade de Iowa acompanhou dentes tratados por cerca de dez anos e encontrou que os que não receberam coroa foram perdidos em ritmo seis vezes maior do que os que receberam (Aquilino e Caplan, 2002). Isso não significa que todo dente precise de coroa: quando a perda de estrutura é pequena, uma restauração pode ser suficiente. É uma decisão tomada caso a caso, com o dente à vista.

Quando o canal não é indicado

Nem todo dente pode ser salvo. Fratura que desce pela raiz, perda de estrutura que impede a restauração ou perda óssea avançada ao redor podem tornar o tratamento pouco previsível. Nesses casos, a extração seguida de reposição, com um implante ou uma prótese, pode fazer mais sentido. Uma boa avaliação apresenta os dois caminhos, com o que cada um envolve.

Depois do tratamento

  • Sensibilidade nos primeiros dias é esperada, principalmente ao mastigar. As orientações e a medicação indicadas pelo dentista costumam controlá-la.
  • Evitar mastigar com força do lado tratado até a restauração definitiva, porque o dente fica mais vulnerável nesse intervalo.
  • Avisar a clínica se a dor aumentar em vez de diminuir, se houver inchaço ou febre.
  • Não adiar a restauração final. Uma vedação provisória por muito tempo deixa o canal exposto a nova contaminação.

Como é a avaliação na Odonto Excellence

O raio-X panorâmico é feito na própria clínica, durante a consulta, e a imagem é mostrada na tela. O paciente vê onde está o problema, entende se o canal resolve ou se outro caminho é mais indicado, e conhece as etapas antes de decidir.

Fontes

  1. Pak JG, White SN. Pain prevalence and severity before, during, and after root canal treatment: a systematic review. J Endod. 2011;37(4):429-38.
  2. Nixdorf DR, Moana-Filho EJ, Law AS, et al. Frequency of persistent tooth pain after root canal therapy: a systematic review and meta-analysis. J Endod. 2010;36(2):224-30.
  3. Ng YL, Mann V, Gulabivala K. Tooth survival following non-surgical root canal treatment: a systematic review of the literature. Int Endod J. 2010;43(3):171-89.
  4. Aquilino SA, Caplan DJ. Relationship between crown placement and the survival of endodontically treated teeth. J Prosthet Dent. 2002;87(3):256-63.

Perguntas frequentes

O tratamento de canal dói?

O procedimento é feito com a região anestesiada. Em uma revisão de 72 estudos, cerca de 8 em cada 10 pacientes tinham dor antes do tratamento; um dia depois, eram 4 em cada 10, e uma semana depois, cerca de 1 em cada 10, quase sempre com dor leve.

Quanto tempo dura um dente com canal?

Em uma revisão sistemática, entre 86% e 93% dos dentes tratados continuavam na boca de 2 a 10 anos depois. A coroa ou restauração adequada depois do canal é um dos fatores que mais pesam nesse número.

Depois do canal o dente precisa de coroa?

Muitas vezes, sim, principalmente em dentes de trás que perderam bastante estrutura. Em um estudo, dentes tratados que não receberam coroa foram perdidos em ritmo seis vezes maior. Quando o dente perdeu pouca estrutura, uma restauração pode bastar; o exame define.

É normal sentir dor dias depois do canal?

Alguma sensibilidade nos primeiros dias é comum, principalmente ao mastigar, e tende a diminuir ao longo da semana. Dor que aumenta em vez de diminuir, inchaço ou febre são motivo para avisar a clínica.

Canal é feito em uma sessão ou em várias?

Depende do dente e do grau de inflamação ou infecção. Há casos resolvidos em uma sessão e casos que pedem mais de uma. A escolha é clínica e é explicada antes de começar.